Baú da feliz idade

Aí em cima, ostento um moderno corte chanel do final dos anos 1980, em foto de Margarete Schlatter. Naquela época, além de cursar jornalismo e usar rabo de cavalo, eu me animava a escrever umas coisinhas. Como a que segue abaixo, resgatada do baú que aparece na foto…

“Outra invenção das dela”. Dona Zuca recém chegara em casa, a chave na porta,
quando percebeu o flash faiscar de dentro do banheiro. Regina não parava de
rir e pular com a máquina polaroide na mão:
– Não chega aqui, mãe. Não chega aqui – e a filha da dona Zuca fechou a porta do
banheiro.
– É amigo ou amiga?
– Amigo, mãe. Um grande cara.
Os olhos de Dona Zuca foram bater na porta fechada.
– Que que há? Esse aí é bandido?
– Que é isso, mãe!
– Ai, meu santo Deus. Eu já te disse para não ficar com a polaroide rolando
por aí.
“Rugas”. O grito veio forte, ecoando pelos azulejos. “Rugas”, foi o grito novamente. Regina gargalhou, sua mãe ficou de cara.
– É pra mim que ele tá dizendo isto? É pra mim?
Detrás da porta veio a musiquinha: “Mary had a little lamb, dá-dá, dá-dá-dá,
dá-dá”. Dona Zuca pegou a mão de Regina e puxou a filha para o sofá da sala.
– Já vou, mãe. Ai, não machuca.
Sentaram-se as duas.
– Já não te disse pra não trazer mais essa gurizada aqui pra casa?
– É só num, mãe. E é um cara da tua idade e trilegal.
Dona Zuca, conservada, afrouxou a pressão no pulso da filha para tentar
escutar algum ruído vindo do banheiro.
– Da minha idade? Que que ele tá fazendo aqui contigo? Porque ele tá trancado
no banheiro?
– É só uma piração dele, mãe.
– Ah, só uma piração…
– Isso. Eu tirei uma foto dele nu…
– Nu? Dele nu? Agora? Aqui?
– É sim. E daqui a pouco ele vai sair do banheiro fantasiado de uma coisa que
nem ele sabe direito o que vai ser. É um sarro.
Dona Zuca, conservadora, examinou a fotografia que se ia revelando, gerada
pela polaroide ainda nas mãos de Regina. O homem nu estava meio de lado, de
pé, com a perna esquerda apoiada no bidê.
– Ele me disse que tava colocando um OB. Não é um sarrinho?
Seguramente magro, mas com barriga típica de tomador de cerveja. Calvo, de
barba cerrada e feita. “Não tem mais pelinho na barriga da perna. É porque tá
velho mesmo”, pensou Dona Zuca antes de levar um susto. Finalmente, a porta do
banheiro se abriu.
– Lá vem o Sinuelo, mãe!
A entrada em cena foi impressionante. A nudez de Sinuelo estampada na foto lhe emprestava uma dignidade que sumiu debaixo da toalha de banho imitando o sarongue e da toalha de rosto servindo de adereço de cabeça. Os músculos dos braços eram evidentes e pareciam tensionados. A voz, desagradável e enrolada como as toalhas.
– Acho que o senhor não tem uma boa voz. Pelo menos, ela é alta demais para as
23h em um prédio de respeito.
Sinuelo parou de cantar o que seria uma versão de “Volare” e sussurrou algo a
Regina, que o abraçava pela cintura.
– Mãe, ele disse que o sinuelo é gado manso acostumado no curral.
– Pois bem. Agradeça a ele por ter chamado nosso apartamento de curral. Tu
andaste bebendo, Regina? O senhor pode se retirar, não é? É quase meia-noite.
Os pés de homem, que sempre atraíram o olhar de Dona Zuca, atraíram de novo. E aquela cinturinha ossuda não era de se jogar fora. Novo sussurro de Sinuelo e Regina.
– Ele disse que a senhora gosta dele, mãe. E que também gostaria de transar
com a senhora.
– O senhor vista-se e se retire aqui de casa. Agora!
Sinuelo afastou Regina de si e voltou ao banheiro sem reação. “Bêbado de
merda”, pensou Dona Zuca. Quando Sinuelo voltou, ajeitava a blusa dentro da
calça ainda. Dona Zuca fez menção de lhe entregar a foto, mas desistiu e a
entregou a Regina.
– Minha filha, pode dar essa recordação ao senhor aí e se despedir. Boa noite,
seu Sinuelo.
Regina se despediu com um beijo suave nos lábios de Sinuelo e pediu-lhe
desculpas em tom baixo. Depois, correu para seu quarto e bateu a porta.
Sinuelo ainda se esforçava para descobrir qual o botão correspondente ao andar
térreo quando a porta do elevador se abriu.
– O botão certo é esse – disse Dona Zuca, séria, enquanto calçava a porta com
o pé e acionava a polaroide para registrar o senhor Sinuelo.
O porteiro do prédio estranhou quando um careca saiu cambaleando do elevador
enquanto, ao fundo, uma voz feminina cantava “Volare”.

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