Aversão à versão

A primeira impressão é a que fica. Quando sobrevoei Los Angeles e senti como se planasse sobre um mar de luzes coloridas, imediatamente entendi que seria apresentado ao templo maior do entretenimento. Quando chego a Porto Alegre de avião, fazendo o curso de aproximação sobre um lago lindo enfeitado de ilhas, parece que estou prestes a mergulhar numa cidade aquática, cheia de correntes, que não se cansa de renovar (uhn, mas se chegou por terra, a paisagem é dura, rude, despojada, exposta em luz amarela e fria…). Dependendo de que lado se chega ao Rio, a primeira vista  pode ser de praias ou pode ser aquela massa informe de favelas e subabitações – Rio, terra de extremos, diria um colega meu. SP não tem alternativa: a gente fica logo sabendo que está sendo enterrado em um mar de concreto, carros, tijolos e pobreza à vista – o avião busca a pista quase raspando nos prédios, e a gente suspeita de como é perigoso crescer tanto.
Todo esse nariz de cera para propor a seguinte tarefa: e se chegarmos a um país, cidade, continente e basearmos nossa avaliação do lugar unicamente no depoimento do motorista de táxi que está nos conduzindo? A experiência que tenho é que o condutor pintará Porto Alegre unicamente como uma cidade de trânsito insuportável, sujeita a um clima que alterna extremos em poucas horas, onde pedestres exacerbam seu direito de garantir segurança ao atravessar a faixa de segurança e as carroças de papeleiros sempre atravancam as ruas na hora de pique. Ehr, tudo certo, é bem isso aí. Mas não é só isso aí.

É sobre isso o vídeo que posto abaixo, com a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, de 32 anos. É sobre taxistas de Porto Alegre, mas também sobre o monopólio da mídia, sobre o discurso hegemônico dos poderosos, sobre a necessidade de ouvir o outro lado, sobre o direito e do dever de cada um contar sua própria história (ou, como diria qualquer panfleto de quinta: “O povo tem de ter vez e voz”…). Sobre ouvir, por que não?, as várias histórias que estão dentro de cada um? E é sobre, inclusive, a incapacidade de as pessoas se abrirem às discussões, concederem aos seus interlocutores o direito de terem eles também suas histórias próprias (será por isso que a discussão entre Nei Lisboa e os tradicionalistas não avançou?).
Bom, mas que o leitor não fique só com minha história: que descubra um pouco das histórias de Chimamanda Adichie.

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