Archive for Abril, 2010

Deus enfrenta o Big Boss
24/04/2010

Deus e Bial juntos? Seria divino? Seria uma redundância? Mas também foi a inspiração para eu criar um esquete de 10 minutos para a Oficina de Dramaturgia de Graça Nunes. A trama é simples: Deus aparece para os dois finalistas do BBB, Carnuda e Buldogue, e lhes propõe um teste que terá por prêmio a vida eterna para toda a Humanidade. Até que Bial retoma o comando da nave louca e…

Se você quiser saber o desfecho, abra o arquivo pdf  O Pai e o grande irmão

O Cirque que brilha
23/04/2010

ou Um Banho de Soleil. Foi difícil escolher o nome do post porque ele deveria estar à altura do encantamento visual, poético e técnico exposto no espetáculo Quidam, do Cirque du Soleil, que estreia hoje em Porto Alegre.

Ainda na condição de editor de teatro do Segundo Caderno da Zero Hora, assisti a Quidam em dezembro de 2009, na lona armada em Curitiba. A viagem, a convite da TIM, rendeu um comentário que reproduzo abaixo. Acessando esse link, você poderá conferir a matéria sobre Quidam postada hoje em zerohora.com, e que traz um depoimento muito legal de Júlio Cordeiro falando sobre como foi fotografar picadeiros e bastidores do Cirque.

comentário publicado em Zero Hora em dezembro de 2009

O espetáculo começa já quando se está tomando assento na tenda armada para receber o Cirque du Soleil. E nem pela presença de um ator que percorre a plateia interpretando o irascível boxeador Boum-Boum. O espetáculo começa quando se percebe que o Cirque sabe combinar o apelo emocional de uma tenda de circo com tecnologia de ponta. Já no início das quase duas horas de função, com intervalo de 30 minutos sendo cumprido com pontualidade britânica pelo grupo canadense (na verdade, a trupe é integrada por 15 nacionalidades), os pais da pequena Zoé são postos a voar pela imaginação da menina. Não serão os únicos a desafiar a gravidade.

As características do Cirque estão mantidas. Há uma tênue linha dramática: a imaginação da menina vai transgredir preconceitos, gravidade e limites. A aposta é em signos facilmente perceptíveis pelo público: em Quidam, um homem sem cabeça e guarda-chuva é o símbolo da alienação, enquanto a (falta de) liberdade de Zoé ganha forma em um balão vermelho preso numa gaiola, que aparece várias cenas. O clima frenético também se mantém: enquanto ocorre uma acrobacia aérea a 20 metros de altura, ao rés do chão atores cruzam o picadeiro. Tudo é teatro, o tempo inteiro. A música também está em cena: como na maioria dos espetáculos do Cirque, a trilha é tocada em grande parte ao vivo, e mantém seu estilo épico e quase opressivo.

O importante é que o Cirque é circo mesmo. Apesar das maquiagens afetadas, da música sintetizada, dos trilhos que correm sobre as cabeças dos espectadores, da iluminação que inventa planos, o que está em cena ainda é o palhaço irreverente, os acrobatas que se valem apenas de seu corpo, os equilibristas que não usam tecnologia alguma, apenas sua concentração, e pular corda pode ser um número circense nota dez. O fundador e diretor executivo do Cirque du Soleil, Gui Laliberté, não mede esforços para realizar seus sonhos: em outubro, pagou US$ 35 milhões para orbitar a Terra na Estação Espacial Internacional. Ainda bem que entre seus sonhos está Quidam.



Heinz põe a boca no trombone
21/04/2010

As imagens que o meu ex-colega Mauro Vieira, da Zero Hora, fez da Parada de Teatro no dia 10 de abril, mostram uma categoria orgulhosa, colorida, em movimento. Mas Heinz Limaverde teve uma mirada bem mais crítica do evento. Confira abaixo:



Segunda Parada…Quase para…

Pode ser a impressão de alguém que cultiva grandes expectativas. Mas quando dobrei a esquina das ruas Erico Verissimo com João Alfredo, no domingo, 10 de abril, às 15h20min (acreditava que eu estava atrasado, devido a minha “montaria” demorada), antecipava encontrar uma multidão de artistas.

Artistas esses que dizem desejar ver salas e teatros lotados. Membros de uma classe teatral de uma cidade percebida em todo o país como uma das capitais mais desenvolvidas e envolvidas culturalmente. Impossível evitar minha decepção ao deparar-me com o número inexpressivo de pessoas no ponto de partida da 2ª Parada de Teatro da Cidade de Porto Alegre. Sim, o Largo Zumbi dos Palmares (mais conhecido como largo da finada Epatur) estava constrangedoramente vazio.

Falo da minha expectativa por ter participado das reuniões e da alegria da primeira parada. Minha conclusão lógica era que, desta vez, na segunda edição, teríamos uma maior participação dos grupos, personalidades, estudantes, diretores, atores, produtores,  professores, sobreviventes e empresários do ofício teatral.

Não é minha intenção (muito pelo contrário) desmerecer a iniciativa de um grupo disposto a fazer acontecer algo legal. Lá estavam muitos alunos, não mais que cinco mestres, menos da metade dos grupos que dizem atuar nesta cidade, a gente do teatro de bonecos (sempre presente, apoiando) e alguns familiares.

Apesar da decepção, uma valiosa lição aprendida nesses meus 16 anos de teatro foi providencial: a plateia sempre merece nosso maior esforço e dedicação – seja ela formada por um, dois, 50 ou 200 espectadores. Da mesma forma, a Parada e os poucos presentes contavam com a entrega de cada um. E seguimos, conduzidos pela força maravilhosa e contagiante da Banda da Saldanha.

Ao fazer esse relato sobre o evento, pergunto: Onde estavam as pessoas que se beneficiam dos fundos como as leis de incentivo à cultura? Os agraciados do Fumproarte? Dos projetos da nacionais da Funarte? Onde estavam as personalidades que alegam fazer teatro “desde as cavernas” na nossa cidade?

Por que razão se ausentaram aqueles que aparecem quando concorrem a premiações? Talvez ocupados em um desses eventos “artísticos” promovidos por políticos e regados a discursos e coquetéis… (Muitos desses, não por coincidência, os mesmos que ocupam, anos a fio, cargos políticos que decidem o destino financeiro e artístico da classe!)
Ali estavam as pessoas que, de fato, se preocupam com o contexto. Com o cenário do fazer teatral em Porto Alegre. Mas esperava mais, projetava mais. Uma vez que festejávamos a 2ª Parada de Teatro, com o apoio voluntário da iniciativa privada (Sesc) e a parceria de nossa prefeitura (que fez o possível e até copinhos com água do DMAE distribuiu), surpreendeu-me a ausência de gente que ocupa a Secretaria de Cultura no Governo Estadual.

Desculpo-me antecipadamente se porventura estiver sendo injusto e equivocado. Mas o evento não teve o impacto necessário para uma classe que quer reivindicar crescimento em nossa cena teatral.

Será que vamos nos encontrar na terceira edição? Espero que abram-se as tais portas dos castelos e cavernas. E que, ao menos por uma tarde, durante algumas horas, um domingo por ano, a máscara de burocrata seja trocada pelo semblante do artista que ainda acredita que fazer teatro é relevante e vale a pena.


Tratamento de choque estético
20/04/2010

João de Ricardo, em foto de Bruno Gularte Barreto

A saúde estética de uma cidade é diretamente proporcional à sua capacidade de se surpreender. O espetáculo Homem que Não Vive da Glória do Passado, em cartaz no próximo domingo, com entrada franca, no Teatro de Câmara Túlio Piva, é o remédio que a Cia Espaço em BRANCO nos receita. Há quem diga que é uma overdose para o paciente, acostumado com um tratamento à base de placebos como comédias ligeiras e clássicos revisitados. Há quem critique que a Glória do Passado se projeta demais no Futuro, que a montagem dirigida por Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo sequer teatro é. Talvez todas essas afirmações até procedam, mas não são antes um elogio que uma ofensa.
Melhor começar falando das glórias do passado da Espaço em BRANCO. O grupo ganhou visibilidade em 2005, com a montagem Extinção, que desde já apresentava suas armas: atuações naturalistas revezando-se com movimentos estilizados, uso massivo de multimídia, busca de dramaturgia contemporânea. No ano seguinte, Andy/Edie trouxe a dramaturgia de Diones Camargo, dissecando a vida de Andy Warhol e da socialite Edie Sedgwick, signos pop em cena e filmagens à vista do público. E trouxe ainda, importante, um público novo para o teatro: gente que não vive da glória do passado do teatro, que enquadra o drama como algo que não dá conta dos problemas e da desfragmentação do nosso presente que tem velocidade de futuro.

Teresa e o Aquário, no ano passado, foi a consolidação das ideias da Cia: a intervenção multimídia radicalizou-se ainda mais, o diretor João de Ricardo subiu ao palco e virou mais um personagem, a iluminação foi para as mãos dos atores, a música era criada ao vivo interagindo com as atuações. A Cia Espaço em BRANCO tem ainda no repertório Alice e Em Trânsito, mas não as assisti ainda (estarão em cartaz também esta semana, com entrada franca – confira no link).

Homem que Não Vive da Glória do Passado, eu assisti. Ou melhor, presenciei, porque é impossível o espectador ficar distante do que é encenado, seja para bem, ou para mal. O espetáculo, baseado em um conto de Bruno Gularte Barreto (diretor ao lado de João de Ricardo), parece um ajuste de contas entre um artista e seu talento. Não é simplesmente a crônica de um crise criativa – é a dissecação inclemente de um criador (ou de um grupo criador) às vistas (e ao tato, e ao olfato, e aos ouvidos) do público.

O início de Homem… é revelador: João de Ricardo, que interpreta (ou melhor seria dizer vive?) o protagonista, leva parte do público para as coxias do teatro, discutindo seu processo de criação, desmistificando o palco, humanizando o criador e deixando claras as hesitações e encruzilhadas estéticas que marcam o espetáculo. O resto do público ocupa as poltronas da sala, e assiste ao que acontece nos bastidores por meio de uma projeção. Ao cabo de uns 30 minutos, termina o que se chamou de prólogo – e tem início um ritual que define trabalho, momento, proposta e ideal da Cia Espaço em BRANCO. A iluminadora e atriz Carina Sehn começa a chamar nominalmente quem está no palco para sentar nas poltronas. Mas o faz dizendo nome, data de nascimento, e definindo a data da morte de cada um como a do dia do espetáculo. No meu caso, nasci em 3 de julho de 1958 e morri em 19 de março de 2010.

É preto no BRANCO: a Cia defende que o teatro do passado está morto, mas não só em termos de formas dramatúrgicas e de encenação tradicionais e consagradas. A leitura é mais cruel e drástica: o teatro da Cia Espaço em BRANCO morreu, o teatro que cada espectador conhece morreu. Cada noite de apresentação é um ciclo completo de vida, que termina com a morte da forma que esteve em cena. Isso parece claro durante a parte mais “tradicional” de Homem que Não Vive da Glória do Passado, que mostra as angústias de um personagem que está trancado em um apartamento e descobre que todas as mulheres do undo morreram;. Não lhe resta muito mais o que fazer senão discutir quais seriam as razões de seu “sucesso”, usando a ironia como ferramenta maior. Aqui e ali, aparecem imagens e até trechos de cenas de algumas montagens anteriores da em BRANCO, e tudo soa como um inventário do que foi feito e desfeito até agora.

O grau de dispersão, estranhamento e surpresa do que está em cena é tal que é difícil realmente enquadrar a montagem como um espetáculo tradicional. Apesar de reforçar elementos já característicos do grupo, como o uso inventivo de música e projeções sendo criadas em tempo real, de por vezes assomar um humor irreverente, o que parece estar em cena é antes o processo de criação da companhia do que mesmo o resultado desse processo.
Como que propondo o fim da ritualidade que define o que está no palco como a culminância e o resultado final de um processo criativo, João, Bruno e Sissi Venturin parecem defender que o palco é uma instância a mais. Humildes, revelam ao público suas vacilações. Arrogantes, impõem um espetáculo que se ergue sobre o não-espetáculo.
Ao abrir mão de ferramentas dramáticas que poderiam garantir catarse ou mera satisfação estética na plateia, Homem que Não Vive das Glórias do Passado termina deixando no espectador muito mais uma inquietação intelectual que emocional. Seria esta a forma mais eficiente de balançar as crenças do públicos? A Cia Espaço em BRANCO subverte a posição passiva do artista, a quem caberia por obrigação garantir satisfação a seu público. Em Homem..., o público sai incorporando as dúvidas dos artistas. Quem está preparado para isso? Por outro lado, o que não mata, engorda. E nada como uma boa terapia de choque estético.

Pergunto se Homem que Nâo Vive da Glória do Passado é um instantâneo, fotografia mais em preto que em branco do estágio atual do grupo, ou se é um rumo que o coletivo deseja assumir, contestando a própria significação do que seja espetáculo, ao menos em sua visão mais tradicional. Prefiro acreditar, e até torcer, para que a primeira alternativa seja a escolha correta, especialmente se tiver uma (ou duas, ou às vezes derramar o saleiro mesmo) pitadinha da segunda. Como já dizia Peter Brook, elogiando desde o teatro de variedades até as montagens estilo cabeçolândia, de que vale ser o tempo todo profundo, ou o tempo todo raso? E nem vale ficar a um tipo só de teatro – que mesmo o que é por nós criado pode nos aprisionar.

Brook também afirma que o teatro está morto, no sentido de que cada encenação está sujeita a seu tempo, seus artífices, suas intenções, seu ambiente. Nesse ponto, a Cia Espaço em BRANCO exibe sua maior qualidade: paralelamente ao esforço de construir uma linguagem e um estilo pessoais, mantém acesa a chama do autoquestionamento, sem medo de incorporar os elementos tempo e morte a seu trabalho. Não se cresce sem crises, e é uma dessas que o grupo está compartilhando – em cena – com o público.

Aversão à versão
07/04/2010

A primeira impressão é a que fica. Quando sobrevoei Los Angeles e senti como se planasse sobre um mar de luzes coloridas, imediatamente entendi que seria apresentado ao templo maior do entretenimento. Quando chego a Porto Alegre de avião, fazendo o curso de aproximação sobre um lago lindo enfeitado de ilhas, parece que estou prestes a mergulhar numa cidade aquática, cheia de correntes, que não se cansa de renovar (uhn, mas se chegou por terra, a paisagem é dura, rude, despojada, exposta em luz amarela e fria…). Dependendo de que lado se chega ao Rio, a primeira vista  pode ser de praias ou pode ser aquela massa informe de favelas e subabitações – Rio, terra de extremos, diria um colega meu. SP não tem alternativa: a gente fica logo sabendo que está sendo enterrado em um mar de concreto, carros, tijolos e pobreza à vista – o avião busca a pista quase raspando nos prédios, e a gente suspeita de como é perigoso crescer tanto.
Todo esse nariz de cera para propor a seguinte tarefa: e se chegarmos a um país, cidade, continente e basearmos nossa avaliação do lugar unicamente no depoimento do motorista de táxi que está nos conduzindo? A experiência que tenho é que o condutor pintará Porto Alegre unicamente como uma cidade de trânsito insuportável, sujeita a um clima que alterna extremos em poucas horas, onde pedestres exacerbam seu direito de garantir segurança ao atravessar a faixa de segurança e as carroças de papeleiros sempre atravancam as ruas na hora de pique. Ehr, tudo certo, é bem isso aí. Mas não é só isso aí.

É sobre isso o vídeo que posto abaixo, com a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, de 32 anos. É sobre taxistas de Porto Alegre, mas também sobre o monopólio da mídia, sobre o discurso hegemônico dos poderosos, sobre a necessidade de ouvir o outro lado, sobre o direito e do dever de cada um contar sua própria história (ou, como diria qualquer panfleto de quinta: “O povo tem de ter vez e voz”…). Sobre ouvir, por que não?, as várias histórias que estão dentro de cada um? E é sobre, inclusive, a incapacidade de as pessoas se abrirem às discussões, concederem aos seus interlocutores o direito de terem eles também suas histórias próprias (será por isso que a discussão entre Nei Lisboa e os tradicionalistas não avançou?).
Bom, mas que o leitor não fique só com minha história: que descubra um pouco das histórias de Chimamanda Adichie.