O pulo do Catto

Filipe Catto em imagem de Ieve Holthausen

A noite de 25 de fevereiro começou no passado e terminou no futuro.  Fui até a Casa de Cultura Mario Quintana conferir o show de Filipe Catto “Saga: Violão e Vísceras”., dentro do Projeto Verão, da Sedac  Dei de cara com o passado assim que assomei (como estou falando do passado, me dou o direito de usar esse verbo…) ao 6º andar da CCMQ: centenas de jovens faziam fila para superlotar a Bruno Kiefer. Sim, o show tinha entrada franca. Por outro lado, é fevereiro e quinta (ou seja, tinha prova do líder do BBB10 para competir… Uhn, acho que esse não é o programa preferido pelo público de Catto). O fato é que lembrei de eu e meu irmão indo até o Clube de Cultura, no final dos anos 1970, para ver o Utopia tocar. O Utopia era um trio basicamente instrumental, liderado por Bebeto Alves, que não dispensava varetas de incenso na beira do palco. Olhei para o público de ontem e identifiquei o mesmo sentimento de turma e de comunhão de estética que antes era embalado em patchuli.
O palco no tempo presente não tinha varetas de incenso, apenas a proposta de vísceras ao som de um violão. A entrada em cena de Catto teve ares de microcelebridade, e o porto-alegrense de 21 anos fez jus à condição. Magro,  insolente, altaneiro e consciente de seu talento, Catto começou a desfilar um repertório basicamente de sua autoria, registrado no CD “Saga” (que pode ser baixado gratuitamente no site do cantor, www.filipecatto.com.br), espécie de crônica desavergonhada de dores no coração de cotovelo. O cantor mostrou ao vivo sua voz aguda, sua afinação firme e, principalmente, estilo. Se as músicas por vezes soavam monocórdias – especialmente devido aos arpejos algumas vezes redundantes do violonista Ricardo Fá, Catto exercitava um estilo blasé, de menino perdido que sabe que está garantido pela sua turma, cioso de seu papel de porta-voz de uma geração. Nas baladas, tangos, canções e sambas, ecoavam a crueza de PJ Harvey, o sentimentalismo de Cartola e Nelson Cavaquinho, o confessionalismo militante de Caio Fernando Abreu. Talvez sem saber, Catto segue um dos ensinamentos compartilhados por Teixeirinha e Erasmo Carlos (!): uma boa composição deve contar uma história. E ele conta suas histórias com cores e voz fortes. E faz questão de insinuar que, de fato, viveu aquelas sagas todas. Resultado: durante o show, uma menina chorava no banheiro do Teatro Bruno Kiefer, identificada às lágrimas com o que ia pelo palco. É a receita perfeita: quebra de fronteiras entre criador e criação, entre artista e fã, entre arte e vida real.
Então, chegamos ao futuro. Catto tem tudo para estourar em breve, e é possível afirmar isso até pelos defeitos que o show de ontem expôs. Ele é o caso do artista que anda na corda bamba do exagero. Como Ney Matogrosso, sua interpretação é desmesurada, plena de teatralidade, por isso mesmo exigindo vários cuidados, especialmente uma direção de palco. Por exemplo, na segunda ou terceira música, ele tomou o microfone na mão, mas o pedestal seguiu no palco, como uma interferência visual e de cena. Mesmo com a liberdade de ter o microfone na mão, Catto cantava olhando para o violonista – uma atitude natural para um ensaio, mas que de pouco efeito em um espetáculo com público. Era o caso de o cantor ocupar o palco de várias maneiras, eventualmente sentando sobre o pequeno praticável onde repousava seu cálice de água, outras vezes avançando até a beira do palco, ou mesmo cantando de frente ao violonista – mas bem junto ao violonista, criando um imagem forte da relação voz/instrumento.
A própria dinâmica do repertório da noite poderia ser modificada, alternando climas. Uma sugestão: o recursos de cantar a capela, utilizado durante o bis, poderia ser colocado na metade do show, pegando a voz de Catto aquecida mas ainda não cansada.
Sendo bem cru, como Catto gosta: apesar da luz precária, do repertório monocórdio que soou monocórdio e sem surpresas, da falta de uma direção de cena – ou talvez por isso tudo, limitações previsíveis em um artista que ainda está descobrindo o que faz parte de seu show -, “Saga: Vísceras e Violão” me revelou um artista em ascensão, cujo maior desafio, agora, é convencer-se de que expor as vísceras emocionais no palco é uma grande conquista e um grande trunfo, mas não é tudo. Filipe está pronto para dar o pulo do Catto. Basta evitar a tentação da autoindulgência.

PS: Catto vai se apresentar dia 12 de março em Buenos Aires, e retorna com o show “Saga: Violão e Vísceras” a Porto Alegre no dia 6 de maio, no palco do Renascença

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Uma resposta

  1. é a melhor crítica que já li sobre o catto! 🙂

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