Com que lenço eu vou?

Estou enfrentando a maior das minhas crises. Sim, porque sou fã do Nei Lisboa… e fã do Yamandú Costa, de Borghettinho, do Luiz Carlos Borges, do Mário Barbará, do Lúcio Yanel, do pouco que conheço do Mano Lima. Tudo por causa da polêmica que frequentou a imprensa e a blogosfera há algumas semanas, opondo em luta fratricida Nei Lisboa e defensores da música tradicional gaúcha (sim, melhor escrever “música tradicional gaúcha”, porque se tentar diferenciar nativismo e tradicionalismo, por exemplo, eu que que vou pra banha).
Resumo: em entrevista a Luis Bissigo, do Segundo Caderno da ZH (que teve um adendo alguns dias depois), Nei afirmou “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas.” Mais adiante, deu uma boiada para entrar na briga quando argumentou que “A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso.”
Claro que os trechos que peguei acima carecem de contextualização, mas quem me lê pode recorrer às matérias completas clicando nos links. Bueno, a resposta a Nei veio dura, mais feia que briga de foice no escuro, a indiada nem se dando ao trabalho de bater de prancha, partindo pro talho de vereda. João de Almeida Neto— postou no site do Nei a resposta mais encorpada (outros posts, alguns com uma violência intolerável, estão no arquivo da seção Fórum). Cito um trecho: “Não conheces sequer uma página da bela história escrita pelos festivais nativistas e pelos compositores que surgiram no RS nos últimos 30 anos. Ou será, mesmo, que achas reacionária a poesia socialmente engajada feita pelo Cenair Maicá, pelo Jayme Caetano Braun, pelo Apparício da Silva Rillo, pelo José Hilário Retamozzo, pelo Robsom Barenho, pelo Sérgio Jacaré Metz, ou pelo Luiz de Miranda e pelo Luiz Coronel, pelo José Fernando Gonzales???? Achas, mesmo, intragável, as construções harmônicas das composições do Luiz Carlos Borges, do Talo Pereyra, do Marinho Barbará, do Marco Aurélio Vasconcelos, do Sérgio Rojas???”
Apesar da quantidade de pontos de interrogação, a polêmica aparentemente arrefeceu – mas a principal questão passou despercebida. Numa primeira abordagem, estamos acompanhando o embate entre o representante de um mundo urbano, permeável a informações e estéticas várias. No outro corner, os defensores da tradição, zelosos mantenedores de nossa cultura gaúcha.
O que me coloca em minha maior crise: onde me alinho? Aqui no Sul, não há lugar para o gris, para o meio-termo, para a terceira via, para a conciliação, para o pardo. Enquanto o Brasil todo se reconhece na mestiçagem, nosso pago rejeita e rechaça o que não nos é próprio. Imagino que o gaúcho antigo vivia isolado no meio do pampa, e era mais que justificado desconfiar de qualquer vivente desconhecido que se aprochegasse naqueles ermos. Isso custou um preço caro: parece que só sabemos contar até dois. Eu e o outro. Ou melhor, eu e o que está contra mim.
Lembro de uma história que minha contava sobre sua juventude em Cachoeira do Sul ou São Sepé: nos bailes, rapazes e moças usavam lenços ou vermelhos ou brancos, identificando maragatos e chimangos. E ai do casal que quisesse misturar os lenços – era garantia certa de um trágico enredo Romeu e Julieta gaudério (ooops, usei o termo gaudério, que também é motico de muita discussão. Bom, azar…).
Gremista da gema como sou, lembro também com constrangimento de a torcida do meu clube entoando o Hino Rio-Grandense em nossos momentos de maior glória ou desgraça. E lembro, dando risada, quando a Claudia Leitte, no palco de um Planeta Atlântida, embestou de gritar algo como “Vamos fazer disso aqui uma Bahia!”, sendo recebida com vaia e o refrão “Ah, eu sou gaúcho”.
Mas recordo também de uma amigo meu, nos anos 1980, que embestou de subir ao palco da Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, vestindo alpercata. Foi impedido, mesmo argumentando que os peões – gaúchos também, não? Talvez os mais autênticos – andavam descalços ou de alpercatas. Mas me emociono ao evocar algumas das tertúlias que preenciei no Festival da Barranca, um dos eventos mais prestigiados do nosso estado, em que os músicos não têm o menor pejo de desfilar seu talento entre vários gêneros (o vinho que corre de mão em mão  vem do outro lado do rio, da Argentina, e ninguém reclama disso).
E lamento que, na virada dos anos 1970 para 1980, vários projetos que erguiam pontes entre a música do campo e da cidade, acabaram perdendo força ante a radicalização. Falo de Almôndegas, falo de Musical Saracura cantando Mário Barbará, falo de Bebeto Alves eletrificando sua herança de Uruguaiana (sem esquecer do Tambo de Bando, mais próximo da década de 1990). Curiosamente, uma das canções mais representativas desse momento é “Desgarrados”, de Barbará e Sergio Napp, com uma letra que expõe impiedosamente a miséria daquele que trocou as vastidões do pampa pelas promessas da cidade grande: “Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade / Viram copos viram mundos, mas o que foi nunca mais será”.
Creio que Nei desafinou ao opor “esclarecimento” e “informação” à música tradicional gaúcha, mas acertou ao criticar o enquadramento estético que se pratica no Rio Grande do Sul. Imaginei algumas perguntas que se poderiam fazer:
– Afinal, a pureza da tradição tão ferrenhamente defendida foi em parte recriada por Barbosa Lessa e Paixão Côrtes a partir de suas andanças pelas América Latina, coisa que nenhum dos dois negou. Em parte, a tradição pura já nasce emprestada. Isso é levado em conta?
– De onde vem o gaúcho? Do campo, do pampa? Mas e os gaúchos do litoral? E a presença açoriana e negra? Se a intenção é valorizar nossa cultura autêntica, por que essas vertentes acabam tão desassistidas?
– O gaúcho da cidade é menos que o gaúcho do Interior?
– Por que a milonga é quase hegemônica, ao menos nos festivais? De novo: se a intenção é valorizar nossa cultura autêntica, por que outros gêneros são esquecidos? Será porque eles não servem para vencer festivais? A música gaúcha autêntica é a que concorre nos festivais?
Adelar Bertussi comentou comigo, em entrevista, a discriminação que a música que os Irmãos Bertussi enfrentou, especialmente na Capital lá pelos anos 1950. Era música de baile, coisa de menor importância. Como ficamos? O que é autêntico tem de receber um selo de qualidade estética? Quem dá esse selo?
– Certamente parte do público jovem que dança ao som da Tchê Music adora também o repertório “autêntico”. Como é que pode? Será que eles recorrem à Tchê Music, e suas questionáveis interferências radicais principalmente na divisão rítmica, porque a música tradicional não lhes oferece um produto (ui, essa vai doer) dançante e atualizado, inclusive em termos de performance no palco?
Uma última pergunta, talvez a mais importante: é possível discutir essas questões sem que se desqualifique o oponente? Só para lembrar: houve um momento em que o Rio Grande do Sul conseguiu esquecer décadas de disputas sangrentas e uniu-se. O resultado desse exercício de tolerância foi a Revolução de 30, que mudou a história do Brasil. Imagine se conseguirmos discutir a música, ou melhor, as músicas do Rio Grande do Sul? Seria uma revolução.

No meio dessa peleia toda, não é o caso de ficar aflito como anão em comício, nem de ficar calmo como cozinheiro de hospicio: vá ouvir o CD “Depois do Raio”, de Marcelo Delacroix (especialmnte a transcendente faixa “Cantiga de Eira”, de Barbosa Lessa) e o recém-lançado CD “Bah”, do Quartchêto, para recuperar a esperança de que existe, sim, a possibilidade de recriar o gaúcho.

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