A emoção em close

Margarida Leoni Peixoto está em "Stand Up Drama". Foto de Marcelo Nunes

Talvez funcione assim com a maioria dos criadores, mas no caso de Bob Bahlis o mecanismo fica bem evidente: a cada montagem, ele se afasta ou até se opõe à anterior seja em termos de temática. encenação ou mesmo no tom que move a cena. No início de 2008, Homens honrava seu nome e mostrava com quantos paus (oops) se faz um bom machismo, valendo-se do formato de comédia rasgada e assumida. No final daquele mesmo ano, Bahlis estreava Dez (Quase) Amores. O eixo da ação, desta vez, não era um homem, mas uma mulher; entretanto o sexo (ou a busca de) seguia sendo o motor da trama, lubrificado pelo humor do texto de Claudia Tajes. Como se fossem siameses com o mesmo coração, alternando o viés entre as duas principais trincheiras da guerra dos sexos, Homens e Dez (Quase) Amores expunham o que se poderia chamar de capitalismo espoliativo amoroso, em que a acumulação de bens (ou de meus benzinhos) é a motivação essencial.
Stand Up Drama, que estreou no Porto Verão Alegre, vai na contramão do capitalismo espoliativo amoroso bem-sucedido – o assunto, agora, são as perdas, sejam ela de pessoas, de inocência, de crenças. O risco da empreitada é grande: um passinho em falso (ou verdadeiro demais) e se despenca no dramalhão. Bahlis não se intimidou: para lidar com tantas perdas, propôs a absoluta perda dos freios emocionais – no palco e na plateia.
O ponto de partida é a estrutura tradicional das stand up comedies, em que o ator interage com o público sem usar caracterização, sem o apoio de um cenário, sem vestir um personagem – conta apenas com a muleta do microfone. Stand Up Drama parte desse formato, mas os atores não entram em cena com um jeitão gaiato ou provocador, convencidos de que a metralhadora giratória da irreverência, o raciocínio rápido e a piada ligeira serão um santo remédio para desconstruir a coleção de humilhações e frustrações à espreita fora do teatro e dentro de cada um. Cada ator entra em cena como se tivesse uma arma carregada com apenas uma bala – que deve acertar direto no coração do espectador.
Bahlis foi cuidadoso com a munição: sete das oito histórias de Stand Up Drama são adaptadas do livro Achei que meu Pai Fosse Deus, uma coletânea de centenas de depoimentos reais e comoventes organizada por Paul Auster. A outra história é inspirada em conto do uruguaio Mario Benedetti. Mas o atirador é tão importante quanto, e a escolha de Bahlis, acertada, recaiu sobre Léo Ferlauto, Margarida Leoni Peixoto, Clóvis Massa e Patsy Cecato.
Cada um dos atores responde por dois textos. Eles vão se sucedendo em cena, em um palco praticamente nu, amparado unicamente por um microfone e pela excepcional luz de Carol Zimmer e Marga Ferreira. Os dramas se sucedem: um tapa no rosto dado pela mãe, uma demonstração de racismo que passou sem resposta, as lágrimas que tiveram de ser escondidas de quem mais se ama, a aceitação do corpo e das opções do corpo. Resumindo: são histórias de crianças ansiosas para se tornarem adultas, na esperança de que isso as fará entender a vida de uma vez; e histórias de adultos loucos para voltarem a ser crianças, na ilusão de que isso as fará sentir a vida outra vez.
Atuar em um espetáculo desse tipo é um desafio e tanto. Sem o recurso de movimentos ou adereços, tendo o rosto e os movimentos de cabeça como principais e praticamente únicos focos de atenção, é necessária uma atuação no limite entre o detalhe e o excesso.
Margarida e Patsy se destacam, acertando o tom sempre. Geralmente associadas a papéis cômicos, elas se arriscam com sucesso pelo drama extremo, dosando o recurso das lágrimas, controlando suas emoções pessoais na ponta dos dedos. Os homens precisariam acertar a intensidade de suas atuações: Massa deveria colorir mais sua interpretação, apimentá-la com agressividade e alguma dureza, enquanto a Ferlauto caberia enxugar sua performance, aliviar um pouco sua máscara – suas feições fortes acabam se impondo sobre o tom de sua atuação.
Em um espetáculo em que reina absoluta a palavra, percebe-se claramente como a tradução é fundamental: não basta lograr o sentido e o efeito pretendidos pelo autor original, a musicalidade e o ritmo são valores a serem buscados também. Esse equilíbrio perfeito é obtido apenas em alguns textos do livro organizado por Auster e, especialmente, no conto de Benedetti. E isso faz toda a diferença, já que a rendição do público às emoções extremadas que estão em cena pode ser abalada por uma frase quadrada, ou um sentido dúbio.
Esse ruído, entretanto, não causa um efeito tão dramático assim em Stand Up Drama. O que se vê, ou melhor, o que se sente, é uma sucessão de jorros emocionais que repercutem muitas vezes em lágrimas. Bahlis tem o mérito de facilitar a comunhão entre história-ator-espectador, limitando seu papel de encenador à tarefa de arrancar de cada história (e cada ator) o que lhe é peculiar e transcendente. Este pudor em interferir no espetáculo acaba cobrando seu preço. O desenho dramatúrgico é simples: oito cenas estruturalmente semelhantes, que começam apresentando os personagens de cada história, depois expõem uma situação geralmente trivial, seguida pela inevitável complicação, ultimadas por uma conclusão comovente, amarrada por uma frase final de impacto. Nada mal, apesar de sempre se poder argumentar que é difícil para qualquer espectador ser exposto a histórias tão emocionantes praticamente sem trégua.
O contra-argumento é que o diretor talvez queira justamente crispar o emocional do público, conduzindo-o para um clímax. Mas o grand finale acaba não vindo, e o público sai da sala com as emoções revolvidas, com a memória desarrumada – mas sem desfrutar de uma cena de resolução do espetáculo, talvez não no sentido mais careta de amarrar as cenas e garantir organicidade à encenação, mas na intenção de sacralizar a urgência absoluta de passearmos pelo passado em busca de pistas sobre o futuro. Ou simplesmente para celebrar que ao longo de nove histórias – as do espetáculo e a de cada um dos espectadores – não se teve vergonha de chorar. Ou, principalmente para irmanar público, atores e texto na convicção de que a humanidade se realiza em nossa capacidade de sentir e de ser solidário.

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