Relato Mendonça mudou de endereço

29/09/2010 - Leave a Response

O blog está em novo endereço: http://relatomendonca.tumblr.com/

Espero continuar recebendo visitas e prometo atualizações constantes, sob pena de rebatizar o blog de Relapso Mendonça…

Baú da feliz idade

01/05/2010 - Leave a Response

Aí em cima, ostento um moderno corte chanel do final dos anos 1980, em foto de Margarete Schlatter. Naquela época, além de cursar jornalismo e usar rabo de cavalo, eu me animava a escrever umas coisinhas. Como a que segue abaixo, resgatada do baú que aparece na foto…

“Outra invenção das dela”. Dona Zuca recém chegara em casa, a chave na porta,
quando percebeu o flash faiscar de dentro do banheiro. Regina não parava de
rir e pular com a máquina polaroide na mão:
– Não chega aqui, mãe. Não chega aqui – e a filha da dona Zuca fechou a porta do
banheiro.
– É amigo ou amiga?
– Amigo, mãe. Um grande cara.
Os olhos de Dona Zuca foram bater na porta fechada.
– Que que há? Esse aí é bandido?
– Que é isso, mãe!
– Ai, meu santo Deus. Eu já te disse para não ficar com a polaroide rolando
por aí.
“Rugas”. O grito veio forte, ecoando pelos azulejos. “Rugas”, foi o grito novamente. Regina gargalhou, sua mãe ficou de cara.
– É pra mim que ele tá dizendo isto? É pra mim?
Detrás da porta veio a musiquinha: “Mary had a little lamb, dá-dá, dá-dá-dá,
dá-dá”. Dona Zuca pegou a mão de Regina e puxou a filha para o sofá da sala.
– Já vou, mãe. Ai, não machuca.
Sentaram-se as duas.
– Já não te disse pra não trazer mais essa gurizada aqui pra casa?
– É só num, mãe. E é um cara da tua idade e trilegal.
Dona Zuca, conservada, afrouxou a pressão no pulso da filha para tentar
escutar algum ruído vindo do banheiro.
– Da minha idade? Que que ele tá fazendo aqui contigo? Porque ele tá trancado
no banheiro?
– É só uma piração dele, mãe.
– Ah, só uma piração…
– Isso. Eu tirei uma foto dele nu…
– Nu? Dele nu? Agora? Aqui?
– É sim. E daqui a pouco ele vai sair do banheiro fantasiado de uma coisa que
nem ele sabe direito o que vai ser. É um sarro.
Dona Zuca, conservadora, examinou a fotografia que se ia revelando, gerada
pela polaroide ainda nas mãos de Regina. O homem nu estava meio de lado, de
pé, com a perna esquerda apoiada no bidê.
– Ele me disse que tava colocando um OB. Não é um sarrinho?
Seguramente magro, mas com barriga típica de tomador de cerveja. Calvo, de
barba cerrada e feita. “Não tem mais pelinho na barriga da perna. É porque tá
velho mesmo”, pensou Dona Zuca antes de levar um susto. Finalmente, a porta do
banheiro se abriu.
– Lá vem o Sinuelo, mãe!
A entrada em cena foi impressionante. A nudez de Sinuelo estampada na foto lhe emprestava uma dignidade que sumiu debaixo da toalha de banho imitando o sarongue e da toalha de rosto servindo de adereço de cabeça. Os músculos dos braços eram evidentes e pareciam tensionados. A voz, desagradável e enrolada como as toalhas.
– Acho que o senhor não tem uma boa voz. Pelo menos, ela é alta demais para as
23h em um prédio de respeito.
Sinuelo parou de cantar o que seria uma versão de “Volare” e sussurrou algo a
Regina, que o abraçava pela cintura.
– Mãe, ele disse que o sinuelo é gado manso acostumado no curral.
– Pois bem. Agradeça a ele por ter chamado nosso apartamento de curral. Tu
andaste bebendo, Regina? O senhor pode se retirar, não é? É quase meia-noite.
Os pés de homem, que sempre atraíram o olhar de Dona Zuca, atraíram de novo. E aquela cinturinha ossuda não era de se jogar fora. Novo sussurro de Sinuelo e Regina.
– Ele disse que a senhora gosta dele, mãe. E que também gostaria de transar
com a senhora.
– O senhor vista-se e se retire aqui de casa. Agora!
Sinuelo afastou Regina de si e voltou ao banheiro sem reação. “Bêbado de
merda”, pensou Dona Zuca. Quando Sinuelo voltou, ajeitava a blusa dentro da
calça ainda. Dona Zuca fez menção de lhe entregar a foto, mas desistiu e a
entregou a Regina.
– Minha filha, pode dar essa recordação ao senhor aí e se despedir. Boa noite,
seu Sinuelo.
Regina se despediu com um beijo suave nos lábios de Sinuelo e pediu-lhe
desculpas em tom baixo. Depois, correu para seu quarto e bateu a porta.
Sinuelo ainda se esforçava para descobrir qual o botão correspondente ao andar
térreo quando a porta do elevador se abriu.
– O botão certo é esse – disse Dona Zuca, séria, enquanto calçava a porta com
o pé e acionava a polaroide para registrar o senhor Sinuelo.
O porteiro do prédio estranhou quando um careca saiu cambaleando do elevador
enquanto, ao fundo, uma voz feminina cantava “Volare”.

Deus enfrenta o Big Boss

24/04/2010 - Leave a Response

Deus e Bial juntos? Seria divino? Seria uma redundância? Mas também foi a inspiração para eu criar um esquete de 10 minutos para a Oficina de Dramaturgia de Graça Nunes. A trama é simples: Deus aparece para os dois finalistas do BBB, Carnuda e Buldogue, e lhes propõe um teste que terá por prêmio a vida eterna para toda a Humanidade. Até que Bial retoma o comando da nave louca e…

Se você quiser saber o desfecho, abra o arquivo pdf  O Pai e o grande irmão

O Cirque que brilha

23/04/2010 - Leave a Response

ou Um Banho de Soleil. Foi difícil escolher o nome do post porque ele deveria estar à altura do encantamento visual, poético e técnico exposto no espetáculo Quidam, do Cirque du Soleil, que estreia hoje em Porto Alegre.

Ainda na condição de editor de teatro do Segundo Caderno da Zero Hora, assisti a Quidam em dezembro de 2009, na lona armada em Curitiba. A viagem, a convite da TIM, rendeu um comentário que reproduzo abaixo. Acessando esse link, você poderá conferir a matéria sobre Quidam postada hoje em zerohora.com, e que traz um depoimento muito legal de Júlio Cordeiro falando sobre como foi fotografar picadeiros e bastidores do Cirque.

comentário publicado em Zero Hora em dezembro de 2009

O espetáculo começa já quando se está tomando assento na tenda armada para receber o Cirque du Soleil. E nem pela presença de um ator que percorre a plateia interpretando o irascível boxeador Boum-Boum. O espetáculo começa quando se percebe que o Cirque sabe combinar o apelo emocional de uma tenda de circo com tecnologia de ponta. Já no início das quase duas horas de função, com intervalo de 30 minutos sendo cumprido com pontualidade britânica pelo grupo canadense (na verdade, a trupe é integrada por 15 nacionalidades), os pais da pequena Zoé são postos a voar pela imaginação da menina. Não serão os únicos a desafiar a gravidade.

As características do Cirque estão mantidas. Há uma tênue linha dramática: a imaginação da menina vai transgredir preconceitos, gravidade e limites. A aposta é em signos facilmente perceptíveis pelo público: em Quidam, um homem sem cabeça e guarda-chuva é o símbolo da alienação, enquanto a (falta de) liberdade de Zoé ganha forma em um balão vermelho preso numa gaiola, que aparece várias cenas. O clima frenético também se mantém: enquanto ocorre uma acrobacia aérea a 20 metros de altura, ao rés do chão atores cruzam o picadeiro. Tudo é teatro, o tempo inteiro. A música também está em cena: como na maioria dos espetáculos do Cirque, a trilha é tocada em grande parte ao vivo, e mantém seu estilo épico e quase opressivo.

O importante é que o Cirque é circo mesmo. Apesar das maquiagens afetadas, da música sintetizada, dos trilhos que correm sobre as cabeças dos espectadores, da iluminação que inventa planos, o que está em cena ainda é o palhaço irreverente, os acrobatas que se valem apenas de seu corpo, os equilibristas que não usam tecnologia alguma, apenas sua concentração, e pular corda pode ser um número circense nota dez. O fundador e diretor executivo do Cirque du Soleil, Gui Laliberté, não mede esforços para realizar seus sonhos: em outubro, pagou US$ 35 milhões para orbitar a Terra na Estação Espacial Internacional. Ainda bem que entre seus sonhos está Quidam.



Heinz põe a boca no trombone

21/04/2010 - Uma resposta

As imagens que o meu ex-colega Mauro Vieira, da Zero Hora, fez da Parada de Teatro no dia 10 de abril, mostram uma categoria orgulhosa, colorida, em movimento. Mas Heinz Limaverde teve uma mirada bem mais crítica do evento. Confira abaixo:



Segunda Parada…Quase para…

Pode ser a impressão de alguém que cultiva grandes expectativas. Mas quando dobrei a esquina das ruas Erico Verissimo com João Alfredo, no domingo, 10 de abril, às 15h20min (acreditava que eu estava atrasado, devido a minha “montaria” demorada), antecipava encontrar uma multidão de artistas.

Artistas esses que dizem desejar ver salas e teatros lotados. Membros de uma classe teatral de uma cidade percebida em todo o país como uma das capitais mais desenvolvidas e envolvidas culturalmente. Impossível evitar minha decepção ao deparar-me com o número inexpressivo de pessoas no ponto de partida da 2ª Parada de Teatro da Cidade de Porto Alegre. Sim, o Largo Zumbi dos Palmares (mais conhecido como largo da finada Epatur) estava constrangedoramente vazio.

Falo da minha expectativa por ter participado das reuniões e da alegria da primeira parada. Minha conclusão lógica era que, desta vez, na segunda edição, teríamos uma maior participação dos grupos, personalidades, estudantes, diretores, atores, produtores,  professores, sobreviventes e empresários do ofício teatral.

Não é minha intenção (muito pelo contrário) desmerecer a iniciativa de um grupo disposto a fazer acontecer algo legal. Lá estavam muitos alunos, não mais que cinco mestres, menos da metade dos grupos que dizem atuar nesta cidade, a gente do teatro de bonecos (sempre presente, apoiando) e alguns familiares.

Apesar da decepção, uma valiosa lição aprendida nesses meus 16 anos de teatro foi providencial: a plateia sempre merece nosso maior esforço e dedicação – seja ela formada por um, dois, 50 ou 200 espectadores. Da mesma forma, a Parada e os poucos presentes contavam com a entrega de cada um. E seguimos, conduzidos pela força maravilhosa e contagiante da Banda da Saldanha.

Ao fazer esse relato sobre o evento, pergunto: Onde estavam as pessoas que se beneficiam dos fundos como as leis de incentivo à cultura? Os agraciados do Fumproarte? Dos projetos da nacionais da Funarte? Onde estavam as personalidades que alegam fazer teatro “desde as cavernas” na nossa cidade?

Por que razão se ausentaram aqueles que aparecem quando concorrem a premiações? Talvez ocupados em um desses eventos “artísticos” promovidos por políticos e regados a discursos e coquetéis… (Muitos desses, não por coincidência, os mesmos que ocupam, anos a fio, cargos políticos que decidem o destino financeiro e artístico da classe!)
Ali estavam as pessoas que, de fato, se preocupam com o contexto. Com o cenário do fazer teatral em Porto Alegre. Mas esperava mais, projetava mais. Uma vez que festejávamos a 2ª Parada de Teatro, com o apoio voluntário da iniciativa privada (Sesc) e a parceria de nossa prefeitura (que fez o possível e até copinhos com água do DMAE distribuiu), surpreendeu-me a ausência de gente que ocupa a Secretaria de Cultura no Governo Estadual.

Desculpo-me antecipadamente se porventura estiver sendo injusto e equivocado. Mas o evento não teve o impacto necessário para uma classe que quer reivindicar crescimento em nossa cena teatral.

Será que vamos nos encontrar na terceira edição? Espero que abram-se as tais portas dos castelos e cavernas. E que, ao menos por uma tarde, durante algumas horas, um domingo por ano, a máscara de burocrata seja trocada pelo semblante do artista que ainda acredita que fazer teatro é relevante e vale a pena.


Tratamento de choque estético

20/04/2010 - 2 Respostas

João de Ricardo, em foto de Bruno Gularte Barreto

A saúde estética de uma cidade é diretamente proporcional à sua capacidade de se surpreender. O espetáculo Homem que Não Vive da Glória do Passado, em cartaz no próximo domingo, com entrada franca, no Teatro de Câmara Túlio Piva, é o remédio que a Cia Espaço em BRANCO nos receita. Há quem diga que é uma overdose para o paciente, acostumado com um tratamento à base de placebos como comédias ligeiras e clássicos revisitados. Há quem critique que a Glória do Passado se projeta demais no Futuro, que a montagem dirigida por Bruno Gularte Barreto e João de Ricardo sequer teatro é. Talvez todas essas afirmações até procedam, mas não são antes um elogio que uma ofensa.
Melhor começar falando das glórias do passado da Espaço em BRANCO. O grupo ganhou visibilidade em 2005, com a montagem Extinção, que desde já apresentava suas armas: atuações naturalistas revezando-se com movimentos estilizados, uso massivo de multimídia, busca de dramaturgia contemporânea. No ano seguinte, Andy/Edie trouxe a dramaturgia de Diones Camargo, dissecando a vida de Andy Warhol e da socialite Edie Sedgwick, signos pop em cena e filmagens à vista do público. E trouxe ainda, importante, um público novo para o teatro: gente que não vive da glória do passado do teatro, que enquadra o drama como algo que não dá conta dos problemas e da desfragmentação do nosso presente que tem velocidade de futuro.

Teresa e o Aquário, no ano passado, foi a consolidação das ideias da Cia: a intervenção multimídia radicalizou-se ainda mais, o diretor João de Ricardo subiu ao palco e virou mais um personagem, a iluminação foi para as mãos dos atores, a música era criada ao vivo interagindo com as atuações. A Cia Espaço em BRANCO tem ainda no repertório Alice e Em Trânsito, mas não as assisti ainda (estarão em cartaz também esta semana, com entrada franca – confira no link).

Homem que Não Vive da Glória do Passado, eu assisti. Ou melhor, presenciei, porque é impossível o espectador ficar distante do que é encenado, seja para bem, ou para mal. O espetáculo, baseado em um conto de Bruno Gularte Barreto (diretor ao lado de João de Ricardo), parece um ajuste de contas entre um artista e seu talento. Não é simplesmente a crônica de um crise criativa – é a dissecação inclemente de um criador (ou de um grupo criador) às vistas (e ao tato, e ao olfato, e aos ouvidos) do público.

O início de Homem… é revelador: João de Ricardo, que interpreta (ou melhor seria dizer vive?) o protagonista, leva parte do público para as coxias do teatro, discutindo seu processo de criação, desmistificando o palco, humanizando o criador e deixando claras as hesitações e encruzilhadas estéticas que marcam o espetáculo. O resto do público ocupa as poltronas da sala, e assiste ao que acontece nos bastidores por meio de uma projeção. Ao cabo de uns 30 minutos, termina o que se chamou de prólogo – e tem início um ritual que define trabalho, momento, proposta e ideal da Cia Espaço em BRANCO. A iluminadora e atriz Carina Sehn começa a chamar nominalmente quem está no palco para sentar nas poltronas. Mas o faz dizendo nome, data de nascimento, e definindo a data da morte de cada um como a do dia do espetáculo. No meu caso, nasci em 3 de julho de 1958 e morri em 19 de março de 2010.

É preto no BRANCO: a Cia defende que o teatro do passado está morto, mas não só em termos de formas dramatúrgicas e de encenação tradicionais e consagradas. A leitura é mais cruel e drástica: o teatro da Cia Espaço em BRANCO morreu, o teatro que cada espectador conhece morreu. Cada noite de apresentação é um ciclo completo de vida, que termina com a morte da forma que esteve em cena. Isso parece claro durante a parte mais “tradicional” de Homem que Não Vive da Glória do Passado, que mostra as angústias de um personagem que está trancado em um apartamento e descobre que todas as mulheres do undo morreram;. Não lhe resta muito mais o que fazer senão discutir quais seriam as razões de seu “sucesso”, usando a ironia como ferramenta maior. Aqui e ali, aparecem imagens e até trechos de cenas de algumas montagens anteriores da em BRANCO, e tudo soa como um inventário do que foi feito e desfeito até agora.

O grau de dispersão, estranhamento e surpresa do que está em cena é tal que é difícil realmente enquadrar a montagem como um espetáculo tradicional. Apesar de reforçar elementos já característicos do grupo, como o uso inventivo de música e projeções sendo criadas em tempo real, de por vezes assomar um humor irreverente, o que parece estar em cena é antes o processo de criação da companhia do que mesmo o resultado desse processo.
Como que propondo o fim da ritualidade que define o que está no palco como a culminância e o resultado final de um processo criativo, João, Bruno e Sissi Venturin parecem defender que o palco é uma instância a mais. Humildes, revelam ao público suas vacilações. Arrogantes, impõem um espetáculo que se ergue sobre o não-espetáculo.
Ao abrir mão de ferramentas dramáticas que poderiam garantir catarse ou mera satisfação estética na plateia, Homem que Não Vive das Glórias do Passado termina deixando no espectador muito mais uma inquietação intelectual que emocional. Seria esta a forma mais eficiente de balançar as crenças do públicos? A Cia Espaço em BRANCO subverte a posição passiva do artista, a quem caberia por obrigação garantir satisfação a seu público. Em Homem..., o público sai incorporando as dúvidas dos artistas. Quem está preparado para isso? Por outro lado, o que não mata, engorda. E nada como uma boa terapia de choque estético.

Pergunto se Homem que Nâo Vive da Glória do Passado é um instantâneo, fotografia mais em preto que em branco do estágio atual do grupo, ou se é um rumo que o coletivo deseja assumir, contestando a própria significação do que seja espetáculo, ao menos em sua visão mais tradicional. Prefiro acreditar, e até torcer, para que a primeira alternativa seja a escolha correta, especialmente se tiver uma (ou duas, ou às vezes derramar o saleiro mesmo) pitadinha da segunda. Como já dizia Peter Brook, elogiando desde o teatro de variedades até as montagens estilo cabeçolândia, de que vale ser o tempo todo profundo, ou o tempo todo raso? E nem vale ficar a um tipo só de teatro – que mesmo o que é por nós criado pode nos aprisionar.

Brook também afirma que o teatro está morto, no sentido de que cada encenação está sujeita a seu tempo, seus artífices, suas intenções, seu ambiente. Nesse ponto, a Cia Espaço em BRANCO exibe sua maior qualidade: paralelamente ao esforço de construir uma linguagem e um estilo pessoais, mantém acesa a chama do autoquestionamento, sem medo de incorporar os elementos tempo e morte a seu trabalho. Não se cresce sem crises, e é uma dessas que o grupo está compartilhando – em cena – com o público.

Aversão à versão

07/04/2010 - Leave a Response

A primeira impressão é a que fica. Quando sobrevoei Los Angeles e senti como se planasse sobre um mar de luzes coloridas, imediatamente entendi que seria apresentado ao templo maior do entretenimento. Quando chego a Porto Alegre de avião, fazendo o curso de aproximação sobre um lago lindo enfeitado de ilhas, parece que estou prestes a mergulhar numa cidade aquática, cheia de correntes, que não se cansa de renovar (uhn, mas se chegou por terra, a paisagem é dura, rude, despojada, exposta em luz amarela e fria…). Dependendo de que lado se chega ao Rio, a primeira vista  pode ser de praias ou pode ser aquela massa informe de favelas e subabitações – Rio, terra de extremos, diria um colega meu. SP não tem alternativa: a gente fica logo sabendo que está sendo enterrado em um mar de concreto, carros, tijolos e pobreza à vista – o avião busca a pista quase raspando nos prédios, e a gente suspeita de como é perigoso crescer tanto.
Todo esse nariz de cera para propor a seguinte tarefa: e se chegarmos a um país, cidade, continente e basearmos nossa avaliação do lugar unicamente no depoimento do motorista de táxi que está nos conduzindo? A experiência que tenho é que o condutor pintará Porto Alegre unicamente como uma cidade de trânsito insuportável, sujeita a um clima que alterna extremos em poucas horas, onde pedestres exacerbam seu direito de garantir segurança ao atravessar a faixa de segurança e as carroças de papeleiros sempre atravancam as ruas na hora de pique. Ehr, tudo certo, é bem isso aí. Mas não é só isso aí.

É sobre isso o vídeo que posto abaixo, com a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, de 32 anos. É sobre taxistas de Porto Alegre, mas também sobre o monopólio da mídia, sobre o discurso hegemônico dos poderosos, sobre a necessidade de ouvir o outro lado, sobre o direito e do dever de cada um contar sua própria história (ou, como diria qualquer panfleto de quinta: “O povo tem de ter vez e voz”…). Sobre ouvir, por que não?, as várias histórias que estão dentro de cada um? E é sobre, inclusive, a incapacidade de as pessoas se abrirem às discussões, concederem aos seus interlocutores o direito de terem eles também suas histórias próprias (será por isso que a discussão entre Nei Lisboa e os tradicionalistas não avançou?).
Bom, mas que o leitor não fique só com minha história: que descubra um pouco das histórias de Chimamanda Adichie.

Com que lenço eu vou?

28/02/2010 - Leave a Response

Estou enfrentando a maior das minhas crises. Sim, porque sou fã do Nei Lisboa… e fã do Yamandú Costa, de Borghettinho, do Luiz Carlos Borges, do Mário Barbará, do Lúcio Yanel, do pouco que conheço do Mano Lima. Tudo por causa da polêmica que frequentou a imprensa e a blogosfera há algumas semanas, opondo em luta fratricida Nei Lisboa e defensores da música tradicional gaúcha (sim, melhor escrever “música tradicional gaúcha”, porque se tentar diferenciar nativismo e tradicionalismo, por exemplo, eu que que vou pra banha).
Resumo: em entrevista a Luis Bissigo, do Segundo Caderno da ZH (que teve um adendo alguns dias depois), Nei afirmou “A música da minha terra, que eu ouvia de criança, o Teixeirinha, por exemplo, nunca me seduziu a ponto de eu profissionalmente produzir alguma coisa com ela. Tudo em torno dela me parece muito ruim, estética, ideológica e musicalmente. Isso inclui sobretudo o que o tradicionalismo tem feito com a música do Rio Grande do Sul nas últimas décadas.” Mais adiante, deu uma boiada para entrar na briga quando argumentou que “A música gaúcha se torna intragável para qualquer pessoa mais esclarecida. Não é só o fato de não me representar. Eles foram absurdamente reacionários, a música começou a ser tutelada em termos do que vestir e não vestir em cima do palco, um absurdo. Qualquer adolescente urbano mediamente esclarecido, hoje em dia, se coloca a quilômetros de distância disso.”
Claro que os trechos que peguei acima carecem de contextualização, mas quem me lê pode recorrer às matérias completas clicando nos links. Bueno, a resposta a Nei veio dura, mais feia que briga de foice no escuro, a indiada nem se dando ao trabalho de bater de prancha, partindo pro talho de vereda. João de Almeida Neto— postou no site do Nei a resposta mais encorpada (outros posts, alguns com uma violência intolerável, estão no arquivo da seção Fórum). Cito um trecho: “Não conheces sequer uma página da bela história escrita pelos festivais nativistas e pelos compositores que surgiram no RS nos últimos 30 anos. Ou será, mesmo, que achas reacionária a poesia socialmente engajada feita pelo Cenair Maicá, pelo Jayme Caetano Braun, pelo Apparício da Silva Rillo, pelo José Hilário Retamozzo, pelo Robsom Barenho, pelo Sérgio Jacaré Metz, ou pelo Luiz de Miranda e pelo Luiz Coronel, pelo José Fernando Gonzales???? Achas, mesmo, intragável, as construções harmônicas das composições do Luiz Carlos Borges, do Talo Pereyra, do Marinho Barbará, do Marco Aurélio Vasconcelos, do Sérgio Rojas???”
Apesar da quantidade de pontos de interrogação, a polêmica aparentemente arrefeceu – mas a principal questão passou despercebida. Numa primeira abordagem, estamos acompanhando o embate entre o representante de um mundo urbano, permeável a informações e estéticas várias. No outro corner, os defensores da tradição, zelosos mantenedores de nossa cultura gaúcha.
O que me coloca em minha maior crise: onde me alinho? Aqui no Sul, não há lugar para o gris, para o meio-termo, para a terceira via, para a conciliação, para o pardo. Enquanto o Brasil todo se reconhece na mestiçagem, nosso pago rejeita e rechaça o que não nos é próprio. Imagino que o gaúcho antigo vivia isolado no meio do pampa, e era mais que justificado desconfiar de qualquer vivente desconhecido que se aprochegasse naqueles ermos. Isso custou um preço caro: parece que só sabemos contar até dois. Eu e o outro. Ou melhor, eu e o que está contra mim.
Lembro de uma história que minha contava sobre sua juventude em Cachoeira do Sul ou São Sepé: nos bailes, rapazes e moças usavam lenços ou vermelhos ou brancos, identificando maragatos e chimangos. E ai do casal que quisesse misturar os lenços – era garantia certa de um trágico enredo Romeu e Julieta gaudério (ooops, usei o termo gaudério, que também é motico de muita discussão. Bom, azar…).
Gremista da gema como sou, lembro também com constrangimento de a torcida do meu clube entoando o Hino Rio-Grandense em nossos momentos de maior glória ou desgraça. E lembro, dando risada, quando a Claudia Leitte, no palco de um Planeta Atlântida, embestou de gritar algo como “Vamos fazer disso aqui uma Bahia!”, sendo recebida com vaia e o refrão “Ah, eu sou gaúcho”.
Mas recordo também de uma amigo meu, nos anos 1980, que embestou de subir ao palco da Califórnia da Canção Nativa, de Uruguaiana, vestindo alpercata. Foi impedido, mesmo argumentando que os peões – gaúchos também, não? Talvez os mais autênticos – andavam descalços ou de alpercatas. Mas me emociono ao evocar algumas das tertúlias que preenciei no Festival da Barranca, um dos eventos mais prestigiados do nosso estado, em que os músicos não têm o menor pejo de desfilar seu talento entre vários gêneros (o vinho que corre de mão em mão  vem do outro lado do rio, da Argentina, e ninguém reclama disso).
E lamento que, na virada dos anos 1970 para 1980, vários projetos que erguiam pontes entre a música do campo e da cidade, acabaram perdendo força ante a radicalização. Falo de Almôndegas, falo de Musical Saracura cantando Mário Barbará, falo de Bebeto Alves eletrificando sua herança de Uruguaiana (sem esquecer do Tambo de Bando, mais próximo da década de 1990). Curiosamente, uma das canções mais representativas desse momento é “Desgarrados”, de Barbará e Sergio Napp, com uma letra que expõe impiedosamente a miséria daquele que trocou as vastidões do pampa pelas promessas da cidade grande: “Sopram ventos desgarrados, carregados de saudade / Viram copos viram mundos, mas o que foi nunca mais será”.
Creio que Nei desafinou ao opor “esclarecimento” e “informação” à música tradicional gaúcha, mas acertou ao criticar o enquadramento estético que se pratica no Rio Grande do Sul. Imaginei algumas perguntas que se poderiam fazer:
– Afinal, a pureza da tradição tão ferrenhamente defendida foi em parte recriada por Barbosa Lessa e Paixão Côrtes a partir de suas andanças pelas América Latina, coisa que nenhum dos dois negou. Em parte, a tradição pura já nasce emprestada. Isso é levado em conta?
– De onde vem o gaúcho? Do campo, do pampa? Mas e os gaúchos do litoral? E a presença açoriana e negra? Se a intenção é valorizar nossa cultura autêntica, por que essas vertentes acabam tão desassistidas?
– O gaúcho da cidade é menos que o gaúcho do Interior?
– Por que a milonga é quase hegemônica, ao menos nos festivais? De novo: se a intenção é valorizar nossa cultura autêntica, por que outros gêneros são esquecidos? Será porque eles não servem para vencer festivais? A música gaúcha autêntica é a que concorre nos festivais?
Adelar Bertussi comentou comigo, em entrevista, a discriminação que a música que os Irmãos Bertussi enfrentou, especialmente na Capital lá pelos anos 1950. Era música de baile, coisa de menor importância. Como ficamos? O que é autêntico tem de receber um selo de qualidade estética? Quem dá esse selo?
– Certamente parte do público jovem que dança ao som da Tchê Music adora também o repertório “autêntico”. Como é que pode? Será que eles recorrem à Tchê Music, e suas questionáveis interferências radicais principalmente na divisão rítmica, porque a música tradicional não lhes oferece um produto (ui, essa vai doer) dançante e atualizado, inclusive em termos de performance no palco?
Uma última pergunta, talvez a mais importante: é possível discutir essas questões sem que se desqualifique o oponente? Só para lembrar: houve um momento em que o Rio Grande do Sul conseguiu esquecer décadas de disputas sangrentas e uniu-se. O resultado desse exercício de tolerância foi a Revolução de 30, que mudou a história do Brasil. Imagine se conseguirmos discutir a música, ou melhor, as músicas do Rio Grande do Sul? Seria uma revolução.

No meio dessa peleia toda, não é o caso de ficar aflito como anão em comício, nem de ficar calmo como cozinheiro de hospicio: vá ouvir o CD “Depois do Raio”, de Marcelo Delacroix (especialmnte a transcendente faixa “Cantiga de Eira”, de Barbosa Lessa) e o recém-lançado CD “Bah”, do Quartchêto, para recuperar a esperança de que existe, sim, a possibilidade de recriar o gaúcho.

O pulo do Catto

28/02/2010 - Uma resposta

Filipe Catto em imagem de Ieve Holthausen

A noite de 25 de fevereiro começou no passado e terminou no futuro.  Fui até a Casa de Cultura Mario Quintana conferir o show de Filipe Catto “Saga: Violão e Vísceras”., dentro do Projeto Verão, da Sedac  Dei de cara com o passado assim que assomei (como estou falando do passado, me dou o direito de usar esse verbo…) ao 6º andar da CCMQ: centenas de jovens faziam fila para superlotar a Bruno Kiefer. Sim, o show tinha entrada franca. Por outro lado, é fevereiro e quinta (ou seja, tinha prova do líder do BBB10 para competir… Uhn, acho que esse não é o programa preferido pelo público de Catto). O fato é que lembrei de eu e meu irmão indo até o Clube de Cultura, no final dos anos 1970, para ver o Utopia tocar. O Utopia era um trio basicamente instrumental, liderado por Bebeto Alves, que não dispensava varetas de incenso na beira do palco. Olhei para o público de ontem e identifiquei o mesmo sentimento de turma e de comunhão de estética que antes era embalado em patchuli.
O palco no tempo presente não tinha varetas de incenso, apenas a proposta de vísceras ao som de um violão. A entrada em cena de Catto teve ares de microcelebridade, e o porto-alegrense de 21 anos fez jus à condição. Magro,  insolente, altaneiro e consciente de seu talento, Catto começou a desfilar um repertório basicamente de sua autoria, registrado no CD “Saga” (que pode ser baixado gratuitamente no site do cantor, www.filipecatto.com.br), espécie de crônica desavergonhada de dores no coração de cotovelo. O cantor mostrou ao vivo sua voz aguda, sua afinação firme e, principalmente, estilo. Se as músicas por vezes soavam monocórdias – especialmente devido aos arpejos algumas vezes redundantes do violonista Ricardo Fá, Catto exercitava um estilo blasé, de menino perdido que sabe que está garantido pela sua turma, cioso de seu papel de porta-voz de uma geração. Nas baladas, tangos, canções e sambas, ecoavam a crueza de PJ Harvey, o sentimentalismo de Cartola e Nelson Cavaquinho, o confessionalismo militante de Caio Fernando Abreu. Talvez sem saber, Catto segue um dos ensinamentos compartilhados por Teixeirinha e Erasmo Carlos (!): uma boa composição deve contar uma história. E ele conta suas histórias com cores e voz fortes. E faz questão de insinuar que, de fato, viveu aquelas sagas todas. Resultado: durante o show, uma menina chorava no banheiro do Teatro Bruno Kiefer, identificada às lágrimas com o que ia pelo palco. É a receita perfeita: quebra de fronteiras entre criador e criação, entre artista e fã, entre arte e vida real.
Então, chegamos ao futuro. Catto tem tudo para estourar em breve, e é possível afirmar isso até pelos defeitos que o show de ontem expôs. Ele é o caso do artista que anda na corda bamba do exagero. Como Ney Matogrosso, sua interpretação é desmesurada, plena de teatralidade, por isso mesmo exigindo vários cuidados, especialmente uma direção de palco. Por exemplo, na segunda ou terceira música, ele tomou o microfone na mão, mas o pedestal seguiu no palco, como uma interferência visual e de cena. Mesmo com a liberdade de ter o microfone na mão, Catto cantava olhando para o violonista – uma atitude natural para um ensaio, mas que de pouco efeito em um espetáculo com público. Era o caso de o cantor ocupar o palco de várias maneiras, eventualmente sentando sobre o pequeno praticável onde repousava seu cálice de água, outras vezes avançando até a beira do palco, ou mesmo cantando de frente ao violonista – mas bem junto ao violonista, criando um imagem forte da relação voz/instrumento.
A própria dinâmica do repertório da noite poderia ser modificada, alternando climas. Uma sugestão: o recursos de cantar a capela, utilizado durante o bis, poderia ser colocado na metade do show, pegando a voz de Catto aquecida mas ainda não cansada.
Sendo bem cru, como Catto gosta: apesar da luz precária, do repertório monocórdio que soou monocórdio e sem surpresas, da falta de uma direção de cena – ou talvez por isso tudo, limitações previsíveis em um artista que ainda está descobrindo o que faz parte de seu show -, “Saga: Vísceras e Violão” me revelou um artista em ascensão, cujo maior desafio, agora, é convencer-se de que expor as vísceras emocionais no palco é uma grande conquista e um grande trunfo, mas não é tudo. Filipe está pronto para dar o pulo do Catto. Basta evitar a tentação da autoindulgência.

PS: Catto vai se apresentar dia 12 de março em Buenos Aires, e retorna com o show “Saga: Violão e Vísceras” a Porto Alegre no dia 6 de maio, no palco do Renascença

A emoção em close

15/02/2010 - Leave a Response

Margarida Leoni Peixoto está em "Stand Up Drama". Foto de Marcelo Nunes

Talvez funcione assim com a maioria dos criadores, mas no caso de Bob Bahlis o mecanismo fica bem evidente: a cada montagem, ele se afasta ou até se opõe à anterior seja em termos de temática. encenação ou mesmo no tom que move a cena. No início de 2008, Homens honrava seu nome e mostrava com quantos paus (oops) se faz um bom machismo, valendo-se do formato de comédia rasgada e assumida. No final daquele mesmo ano, Bahlis estreava Dez (Quase) Amores. O eixo da ação, desta vez, não era um homem, mas uma mulher; entretanto o sexo (ou a busca de) seguia sendo o motor da trama, lubrificado pelo humor do texto de Claudia Tajes. Como se fossem siameses com o mesmo coração, alternando o viés entre as duas principais trincheiras da guerra dos sexos, Homens e Dez (Quase) Amores expunham o que se poderia chamar de capitalismo espoliativo amoroso, em que a acumulação de bens (ou de meus benzinhos) é a motivação essencial.
Stand Up Drama, que estreou no Porto Verão Alegre, vai na contramão do capitalismo espoliativo amoroso bem-sucedido – o assunto, agora, são as perdas, sejam ela de pessoas, de inocência, de crenças. O risco da empreitada é grande: um passinho em falso (ou verdadeiro demais) e se despenca no dramalhão. Bahlis não se intimidou: para lidar com tantas perdas, propôs a absoluta perda dos freios emocionais – no palco e na plateia.
O ponto de partida é a estrutura tradicional das stand up comedies, em que o ator interage com o público sem usar caracterização, sem o apoio de um cenário, sem vestir um personagem – conta apenas com a muleta do microfone. Stand Up Drama parte desse formato, mas os atores não entram em cena com um jeitão gaiato ou provocador, convencidos de que a metralhadora giratória da irreverência, o raciocínio rápido e a piada ligeira serão um santo remédio para desconstruir a coleção de humilhações e frustrações à espreita fora do teatro e dentro de cada um. Cada ator entra em cena como se tivesse uma arma carregada com apenas uma bala – que deve acertar direto no coração do espectador.
Bahlis foi cuidadoso com a munição: sete das oito histórias de Stand Up Drama são adaptadas do livro Achei que meu Pai Fosse Deus, uma coletânea de centenas de depoimentos reais e comoventes organizada por Paul Auster. A outra história é inspirada em conto do uruguaio Mario Benedetti. Mas o atirador é tão importante quanto, e a escolha de Bahlis, acertada, recaiu sobre Léo Ferlauto, Margarida Leoni Peixoto, Clóvis Massa e Patsy Cecato.
Cada um dos atores responde por dois textos. Eles vão se sucedendo em cena, em um palco praticamente nu, amparado unicamente por um microfone e pela excepcional luz de Carol Zimmer e Marga Ferreira. Os dramas se sucedem: um tapa no rosto dado pela mãe, uma demonstração de racismo que passou sem resposta, as lágrimas que tiveram de ser escondidas de quem mais se ama, a aceitação do corpo e das opções do corpo. Resumindo: são histórias de crianças ansiosas para se tornarem adultas, na esperança de que isso as fará entender a vida de uma vez; e histórias de adultos loucos para voltarem a ser crianças, na ilusão de que isso as fará sentir a vida outra vez.
Atuar em um espetáculo desse tipo é um desafio e tanto. Sem o recurso de movimentos ou adereços, tendo o rosto e os movimentos de cabeça como principais e praticamente únicos focos de atenção, é necessária uma atuação no limite entre o detalhe e o excesso.
Margarida e Patsy se destacam, acertando o tom sempre. Geralmente associadas a papéis cômicos, elas se arriscam com sucesso pelo drama extremo, dosando o recurso das lágrimas, controlando suas emoções pessoais na ponta dos dedos. Os homens precisariam acertar a intensidade de suas atuações: Massa deveria colorir mais sua interpretação, apimentá-la com agressividade e alguma dureza, enquanto a Ferlauto caberia enxugar sua performance, aliviar um pouco sua máscara – suas feições fortes acabam se impondo sobre o tom de sua atuação.
Em um espetáculo em que reina absoluta a palavra, percebe-se claramente como a tradução é fundamental: não basta lograr o sentido e o efeito pretendidos pelo autor original, a musicalidade e o ritmo são valores a serem buscados também. Esse equilíbrio perfeito é obtido apenas em alguns textos do livro organizado por Auster e, especialmente, no conto de Benedetti. E isso faz toda a diferença, já que a rendição do público às emoções extremadas que estão em cena pode ser abalada por uma frase quadrada, ou um sentido dúbio.
Esse ruído, entretanto, não causa um efeito tão dramático assim em Stand Up Drama. O que se vê, ou melhor, o que se sente, é uma sucessão de jorros emocionais que repercutem muitas vezes em lágrimas. Bahlis tem o mérito de facilitar a comunhão entre história-ator-espectador, limitando seu papel de encenador à tarefa de arrancar de cada história (e cada ator) o que lhe é peculiar e transcendente. Este pudor em interferir no espetáculo acaba cobrando seu preço. O desenho dramatúrgico é simples: oito cenas estruturalmente semelhantes, que começam apresentando os personagens de cada história, depois expõem uma situação geralmente trivial, seguida pela inevitável complicação, ultimadas por uma conclusão comovente, amarrada por uma frase final de impacto. Nada mal, apesar de sempre se poder argumentar que é difícil para qualquer espectador ser exposto a histórias tão emocionantes praticamente sem trégua.
O contra-argumento é que o diretor talvez queira justamente crispar o emocional do público, conduzindo-o para um clímax. Mas o grand finale acaba não vindo, e o público sai da sala com as emoções revolvidas, com a memória desarrumada – mas sem desfrutar de uma cena de resolução do espetáculo, talvez não no sentido mais careta de amarrar as cenas e garantir organicidade à encenação, mas na intenção de sacralizar a urgência absoluta de passearmos pelo passado em busca de pistas sobre o futuro. Ou simplesmente para celebrar que ao longo de nove histórias – as do espetáculo e a de cada um dos espectadores – não se teve vergonha de chorar. Ou, principalmente para irmanar público, atores e texto na convicção de que a humanidade se realiza em nossa capacidade de sentir e de ser solidário.